
A conjuntura no primeiro semestre 2026 e sua sustentabilidade para 2027
Como de hábito comentamos a conjuntura macroeconômica com nos números já disponíveis do primeiro semestre de 2026, e por que não, com um olhar já para 2027 que se aproxima.
Vamos começar pelos indicadores básicos: a inflação no primeiro semestre, medida pelo IPCA/IBGE, foi de 4,64% nos doze meses findos em junho de 2026, um pouco acima do teto da meta de 4,50%, em princípio nada para se alarmar.
A taxa de desemprego, também medida pelo IBGE, está na mínima histórica de 10 anos, em 5,6%, bem diferente do máximo de 14,9% durante a pandemia. Já a apuração do nível de emprego formal, medido pelo CAGED do Ministério do Trabalho, com base nas contratações e desligamentos que efetivamente ocorreram mês a mês via carteira assinada, aponta para um saldo de 73 mil empregos novos gerados em jun/26, porém demonstra uma desaceleração contínua na criação de novos postos nos últimos meses.
A taxa de câmbio real/dólar não tem apresentado grandes variações, mesmo considerando a inflação brasileira pelo IPCA e a inflação americana pelo CPI. Após atingir R$ 6,10 no final de 2024, o dólar encerrou junho em R$ 5,13, reduzindo parte das pressões sobre os preços domésticos.
Os indicadores econômicos não costumam mudar de direção de forma abrupta. As expectativas, por outro lado, podem ser revertidas em questão de semanas. É justamente esse movimento que marca o início de agosto.
Depois de um primeiro semestre em que o mercado revisou sucessivamente para cima suas projeções de inflação, as divulgações mais recentes sugerem uma leitura mais suave para os preços. Não se trata de uma mudança estrutural do cenário econômico, mas de um sinal de que parte do pessimismo observado nos últimos meses perdeu intensidade, mesmo em um ambiente que continua exigindo prudência.
O Boletim Focus, divulgado semanalmente pelo Banco Central, sintetiza bem essa mudança de percepção. Há apenas um mês, a mediana das expectativas para o IPCA de 2026 alcançava 5,30%. Na divulgação de 31 de julho, essa projeção recuou para 5,03%, acompanhada pela redução da expectativa para a taxa Selic de 14,00% para 13,75%, enquanto as estimativas de crescimento do PIB permaneceram praticamente estáveis, em 1,99%. Embora a inflação projetada ainda permaneça acima do teto da meta, o movimento recente indica uma redução das expectativas.
Agora começam as notícias não tão boas, que são capazes de definir os próximos meses, e principalmente para o ano de 2027, quando terá de começar uma nova gestão, independente de quem esteja sentado no trono do Palácio do Planalto. O tal arcabouço fiscal não foi cumprido e urge achar novo comprometimento do governo.
A questão fiscal deverá dar a tônica para o próximo mandatário. Em um cenário com alto nível da taxa de juros básica da economia (Selic), e com a dívida bruta em níveis cada vez mais elevados, será preciso que o novo governo coloque uma lupa sobre o resultado primário (receitas menos despesas do governo, excluindo os juros) e o resultado nominal (receitas menos despesas, incluindo juros).
Apesar da redução de 0,25 p.p. da taxa Selic na reunião do COPOM de ago/26, trata-se ainda assim de um dos valores nominais mais elevados, além de consagrar um spread de juros reais de cerca de 8,50%, um dos mais altos de todos os tempos no Brasil e no mundo: alguma coisa não está bem aí, ou melhor, está muito mal e não sustentável. Exceção, é claro, para os banqueiros e investidores detentores da dívida pública.
A dívida bruta atingiu em jun/26 um dos patamares mais elevados (82%) do PIB. Muita dívida e taxa de juros alta formam uma combinação explosiva, onde se vê que o resultado primário das contas do governo é um déficit de 0,5% do PIB e – grand finale – para o resultado nominal, que inclui os juros, é esperado um déficit de 8,70% do PIB.
Com a dívida pública em trajetória de crescimento e os juros reais entre os mais elevados do mundo, a economia real se depara com aumento da inadimplência, limitações ao crédito e aos investimentos, o que definitivamente não é bom para o crescimento econômico e bem-estar social.
Assim, em 2027, ou se estabelece uma nova visão para as contas públicas, com um ajuste fortíssimo que leve a um resultado primário positivo e robusto, ou se instala o perigoso descrédito e o caos no mercado financeiro e na sociedade.