Opiniões

Domingo, 4 de outubro de 2026

Alguns jornalistas alinhados ao governo afirmam que o ambiente econômico de 2026 favorece a reeleição do presidente, mesmo faltando mais de seis meses para a eleição. Apontam inflação controlada, juros em queda, dólar fraco, crescimento superior ao do governo anterior, desemprego baixo e melhora da renda. Além disso, observam que quem ocupa o Palácio do Planalto tende a beneficiar-se do comando da máquina pública. Dentre esses argumentos, “juros em queda” merece cautela: trata-se de uma orientação do Banco Central cuja confirmação dependerá da evolução econômica ao longo de 2026, além de considerar os efeitos da guerra em curso e o aumento do preço do petróleo.

É preciso, porém, estar atento ao quadro fiscal. O controle do déficit prometido pelo “arcabouço fiscal” e pelo Ministério da Fazenda não foi cumprido, pois os números divulgados parecem maquiar a realidade fiscal. O indicador mais revelador é o crescimento da dívida pública, impulsionado tanto pelos déficits fiscais quanto pelo elevado custo real dos juros da dívida – combinação que torna a trajetória da dívida insustentável em médio e longo prazos. Alguém terá de pagar essa conta; provavelmente não será o próximo governo.

Segundo o Banco Central, devido ao aumento dos gastos e aos juros elevados, a dívida pública atingiu 78,7% do PIB em 2025, o equivalente a cerca de R$ 10 trilhões. Ao fim de 2024, o endividamento do setor público consolidado – que inclui governo federal, estados, municípios e empresas estatais – estava em R$ 9 trilhões, ou 76,3% do PIB. Considerando o aumento da dívida pública de R$ 1 trilhão em 2025, o impacto adicional por brasileiro ocupado chega a aproximadamente R$ 10 mil – o equivalente a quase três vezes a renda média mensal do trabalhador de R$ 3600, segundo os dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. No padrão do Fundo Monetário Internacional (FMI), que incorpora títulos públicos em carteira do BC e serve de referência internacional, a dívida brasileira somou 93,4% do PIB em dezembro de 2025.

Trata-se de um acréscimo de magnitude expressiva, que amplia de forma relevante a pressão sobre as contas públicas, eleva o custo de financiamento do Estado e reduz o espaço fiscal para investimentos e políticas públicas nos próximos anos, afetando diretamente o crescimento econômico e a sustentabilidade das finanças públicas.

Para o ministro da Fazenda, o crescimento da dívida decorre sobretudo das despesas com juros, e não do déficit fiscal em si. Analistas, por sua vez, avaliam que o aumento de gastos e de estímulos levou o Banco Central a adotar juros mais altos para conter a inflação. O eleitor comum nem sempre percebe que essa dívida será repassada às gerações futuras, e que existe uma confusão entre causa e efeito ao associar controle da inflação exclusivamente a juros que pressionam tanto as contas públicas quanto o cidadão endividado e os empresários que precisam de crédito.

O jornalista Fernando Gabeira registrou em sua última coluna – no dia em que completava 85 anos – que não tinha certeza de estar presente nas eleições de 2030. Comentou também sobre a certeza de que o programa de governo mereceria um horizonte mais longo de esperança; se o nosso futuro pessoal pode não estar diretamente comprometido, nossos filhos e netos ao nascerem já ganham automaticamente no cartório um CPF, que carrega uma responsabilidade para além de nosso alcance pessoal.