Opiniões

Depreciação: o custo esquecido na garagem

“Todos querem estar certos, mas ninguém se detém para verificar se sua ideia do que é certo está certa.”

F. M. Alexander

A reflexão acima é um ponto de partida oportuno para pensarmos sobre decisões financeiras que parecem óbvias, mas que, em sua grande maioria, não são analisadas com a devida profundidade. Conforme o quarto trimestre de 2025 se aproxima, inicia-se também o planejamento para um novo ano. Nesse cenário, o recebimento do décimo terceiro salário funciona como catalisador de escolhas importantes, entre as quais se destaca uma dúvida recorrente: sobre a aquisição de um novo carro ou manter o atual.

O preço nominal que se paga por um automóvel não traduz o seu verdadeiro custo. A lógica econômica da troca de carro está baseada no conceito de custo de propriedade, que corresponde à diferença entre o valor de compra e o valor de revenda no futuro, dividida pelo tempo de uso.

Um exemplo simples ajuda a compreender: um veículo zero Km modelo Volskwagen T-Cross, um dos mais vendidos do país, adquirido em 2022 por R$ 161 mil e revendido em 2025 por R$ 126 mil, gerou uma perda de R$ 35 mil (desvalorização de 22%) em 36 meses, o que equivale a R$ 970 por mês. Essa conta revela que o automóvel não custa somente o que se desembolsa na concessionária, devendo ser acrescido o quanto ele se desvaloriza durante o período em que pertence ao seu proprietário.

A depreciação, entendida como a redução do valor de mercado de um bem ao longo do tempo em razão do uso, do desgaste natural e da própria dinâmica mercadológica, é o elemento central desse cálculo e não ocorre de maneira uniforme. Ela é mais acentuada nos primeiros anos e tende a se estabilizar após o terceiro ano de uso. Por isso, a decisão de trocar o carro muito cedo implica absorver uma parcela maior dessa perda, enquanto mantê-lo por tempo excessivo pode significar arcar com custos crescentes de manutenção e, simultaneamente, lidar com a perda de liquidez e de atratividade na revenda. Nesse processo, outros fatores como IPVA, seguro e combustível exercem impacto relativamente menor, pois não variam tanto entre um carro novo e um seminovo. O que pesa, de fato, é o equilíbrio entre a desvalorização e as despesas de manutenção.

Outro ponto a ser considerado é o comportamento do mercado. Concessionárias trabalham com metas mensais, trimestrais e anuais e, muitas vezes, oferecem condições excepcionais para liquidar estoques ou fechar cotas de vendas. O comprador atento pode encontrar oportunidades raras, que não se explicam por lógica aparente, mas pela necessidade momentânea do vendedor. Casos de descontos expressivos em modelos específicos, oferecidos nos últimos dias de determinado período, demonstram que a negociação inteligente pode reduzir significativamente o custo de propriedade. Não é coincidência que a maior parte do lucro das concessionárias esteja concentrada no pós-venda, como serviços de manutenção e revisões, e não na venda direta do veículo, cuja margem muitas vezes não ultrapassa 3%.

A racionalidade financeira exige, portanto, que a decisão de trocar de carro não seja pautada pelo valor absoluto do bem, mas pelo fluxo de perda de valor que ele representa ao longo do tempo. É preciso calcular quanto patrimônio se perde em 18, 24 ou 36 meses e estabelecer um parâmetro pessoal de custo mensal. Esse histórico de custos serve como guia para novas decisões, evitando que a troca ocorra por impulso ou por pressão de marketing. Ao mesmo tempo, é importante reconhecer que o custo marginal tende a crescer com o passar dos anos: quanto mais tempo o carro permanece na garagem, maior a chance de gastos imprevistos e menor o poder de revenda.

Em última análise, ter um carro sempre representará um custo inevitável. Esse custo pode ser resumido na fórmula simples da depreciação dividida pelo tempo de uso. A estratégia mais equilibrada é identificar o ponto em que a soma da desvalorização futura com as despesas de manutenção ultrapassa o custo de trocar o carro por um novo. É nesse momento que a substituição se torna financeiramente racional. O erro mais comum está em pensar no automóvel como um investimento, quando ele é, de fato, um bem de consumo com uma lógica financeira própria.

A lição final é clara: a compra de um carro deve ser guiada pela racionalidade e não pela emoção. Cabe ao consumidor calcular com serenidade o seu custo real de propriedade e observar as oportunidades de mercado.